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Vivemos a crédito: a dívida ecológica que nenhum programa eleitoral travou

José Vieira Junho 2026
Vivemos a crédito: a dívida ecológica que nenhum programa eleitoral travou

Há anos que Portugal esgota os seus recursos naturais antes de maio. A sustentabilidade encheu programas de dezenas de partidos — mas os números do crédito ambiental contam outra história.

A 7 de maio de 2026, Portugal ficou sem orçamento. Não o do Estado, esse vai-se gerindo. O orçamento que se esgotou foi outro, bem mais difícil de renegociar: o da natureza. A partir desse dia, o país passou a viver "a crédito ambiental", consumindo recursos que a Terra só conseguiria repor no ano seguinte e acumulando uma dívida ecológica que não desaparece com um decreto.

O conceito é simples e implacável. Segundo a Global Footprint Network, o Dia da Sobrecarga marca o momento em que a procura humana por recursos excede aquilo que os ecossistemas conseguem regenerar num ano. Tudo o que se consome depois é descoberto puro. E se há indicador que devia envergonhar quem governa e quem se candidata a governar, é este.

Os números não mentem

Olhemos para a série recente. Em 2024, Portugal atingiu a sobrecarga a 28 de maio. Em 2025, recuou para 5 de maio. Em 2026, ficou-se pelos 7 de maio — uma melhoria de dois dias que a própria associação ZERO classifica como tímida, e que não esconde o essencial: há mais de duas décadas que o país esgota a sua quota natural ainda antes de o ano ir a meio. A data de 7 de maio é, aliás, exatamente a mesma de 2022 e 2023. Por outras palavras: estamos parados.

O retrato fica mais cru quando se traduz em planetas. Se toda a humanidade vivesse como o português médio, seriam precisos cerca de 2,9 planetas Terra para sustentar esse ritmo de consumo. Não temos 2,9 planetas. Temos um, e gasto.

E Portugal nem sequer é dos piores da turma europeia. O Luxemburgo esgotou a sua quota a 17 de fevereiro, o Qatar a 4 de fevereiro à escala mundial. Mas comparar-se com os incumpridores não é critério de êxito — é desculpa. Países como a Alemanha, o Reino Unido, a Grécia ou a Espanha são hoje mais sustentáveis do que nós.

Sustentabilidade: a palavra que todos disseram

Aqui chegamos ao ponto incómodo. Nas últimas campanhas eleitorais — autárquicas, legislativas, europeias — a sustentabilidade esteve em todo o lado. Encheu programas de dezenas de partidos, da esquerda à direita, dos grandes aos pequenos. Transição energética, economia circular, neutralidade carbónica, pegada ecológica: o vocabulário tornou-se obrigatório, quase um carimbo de modernidade sem o qual nenhuma candidatura se apresentava a sério.

Mas o efeito? Os números acima são a resposta. Se a sustentabilidade tivesse saído dos programas para a realidade na proporção em que foi prometida, a data da sobrecarga estaria a recuar de forma consistente, ano após ano. Não está. Oscila dois ou três dias, presa sensivelmente no mesmo ponto onde estava há quatro anos. A retórica avançou; a pegada, não.

Há aqui uma distância que merece ser nomeada. Entre o compromisso de palco e a consequência medida vai um fosso que se mede, neste caso, em dias de calendário — e em florestas que ardem, água que escasseia, biodiversidade que se perde e carbono que se acumula. A sustentabilidade transformou-se demasiadas vezes num adjetivo de campanha em vez de um critério de decisão.

Crédito não é um problema de slogans

Viver a crédito ambiental não se resolve com mais menções nos manifestos eleitorais. Resolve-se com escolhas concretas e, muitas delas, impopulares: na forma como produzimos energia, em como nos deslocamos, no que comemos, no que construímos e no que deitamos fora. Resolve-se quando a sustentabilidade deixa de ser um capítulo do programa e passa a ser a régua por que se avaliam todos os outros.

O cartão de crédito da Terra não tem limite visível — até ao dia em que tem. E a fatura, essa, não se paga em euros. Paga-se em planeta. A pergunta que fica, depois de tantas campanhas e tantas promessas, é simples: para quando o efeito?

José Vieira
José Vieira
Secretário Geral MPT
Publicado em Junho 2026