Formar pessoas, não apenas alunos: o humanismo que falta às nossas escolas

A escola portuguesa diz-se humanista, mas entre o papel e o pátio há uma distância. Que lugar têm hoje os valores na formação dos jovens — e o que pode o MPT fazer por uma educação que volte a colocar a pessoa no centro.
Abra-se qualquer documento orientador do sistema educativo português e a palavra aparece quase sempre: humanista. A escola, lê-se, deve dar aos jovens "saberes e valores para a construção de uma sociedade mais justa, centrada na pessoa e na dignidade humana". É uma frase bonita. A questão é saber quanto dela sobrevive à viagem do papel até à sala de aula.
Em 2025, o Estado reformulou a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania e deu à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento oito dimensões obrigatórias, das quais constam os Direitos Humanos, a democracia, o desenvolvimento sustentável e o pluralismo cultural. No papel, está tudo. A pergunta crítica é outra: terá uma disciplina, por mais bem desenhada que esteja, capacidade para formar o carácter de uma geração?
O humanismo não se ensina por decreto
Há uma tentação confortável em pensar que basta criar uma disciplina para resolver um problema de fundo. Mas o humanismo — a capacidade de reconhecer no outro a mesma dignidade que reclamamos para nós — não é matéria de exame. Não se decora, não se testa num teste de quarenta minutos, não cabe numa grelha de avaliação.
Aprende-se de outra forma: pelo exemplo dos adultos, pela qualidade das relações dentro da escola, pelo tempo que se dá a ouvir, pela forma como se trata quem é diferente. E é precisamente esse o terreno que o sistema, apesar de toda a sua linguagem humanista, tem vindo a descuidar. Turmas grandes, professores esgotados, currículos sobrecarregados de conteúdos e escassos de espaço para a pessoa. Mede-se tudo o que é mensurável e esquece-se quase tudo o que não é.
Uma geração entre ecrãs e pressas
O problema agrava-se fora dos muros da escola. Os jovens de hoje crescem num ambiente que premeia a velocidade, a comparação permanente e o ruído. Formam-se opiniões em segundos, julga-se sem conhecer, descarta-se sem pensar. A empatia, que exige tempo e atenção, compete em desvantagem com algoritmos desenhados para o oposto.
Neste cenário, uma educação verdadeiramente humanista deixa de ser um luxo pedagógico para passar a ser uma necessidade urgente. Não se trata de formar bons alunos. Trata-se de formar pessoas capazes de viver em comunidade, de cuidar umas das outras e do mundo que partilham.
O contributo do MPT
É aqui que o Partido da Terra – MPT encontra uma das suas convicções mais profundas. Para o MPT, não há ecologia sem ética, nem defesa do território sem defesa da pessoa. O mesmo princípio que nos manda cuidar da natureza manda-nos cuidar de quem nela vive — e formar, desde cedo, cidadãos conscientes de que pertencem a algo maior do que si próprios.
O humanismo que o MPT defende para as escolas não é abstrato. Traduz-se em propostas concretas: valorizar o contacto dos jovens com a terra e com a comunidade local, como acontece nas iniciativas em que crianças plantam árvores e aprendem a cuidar delas; reforçar a educação ambiental não como tema isolado, mas como escola de responsabilidade e de respeito; e devolver à escola tempo e condições para que os afetos, a cooperação e o sentido cívico tenham lugar a par dos conteúdos.
Porque um país que quer um futuro justo não pode limitar-se a instruir. Tem de educar. E educar é, no fim, ensinar a ser humano.
O que devemos fazer
A mudança não depende apenas de quem governa. Depende das famílias que dão o exemplo, dos professores a quem é preciso devolver respeito e meios, das autarquias e instituições locais que aproximam os jovens da sua comunidade. Depende de uma sociedade que decida, coletivamente, que formar pessoas íntegras é tão importante como formar trabalhadores qualificados.
O humanismo não se impõe. Cultiva-se. E, como tudo o que se cultiva, dá os melhores frutos quando se começa cedo, com paciência e com mãos dispostas a tratar da terra. As nossas escolas são esse solo. Resta saber se teremos a coragem de o regar.


