A inteligência artificial também tem pegada: o lado que ninguém celebra no Dia Mundial do Ambiente

Enquanto o mundo fala de futuro digital, os centros de dados que alimentam a inteligência artificial consomem eletricidade e água à escala de países inteiros. No Dia Mundial do Ambiente, vale a pena olhar para o custo real desta corrida.
A cada 5 de junho celebramos o Dia Mundial do Ambiente. Falamos de florestas, de oceanos, de transição energética. Mas há uma ameaça silenciosa que raramente entra nestas conversas: a fome de recursos da chamada inteligência artificial.
Uma sede à escala de continentes
Por detrás de cada resposta gerada por um sistema de IA estão enormes centros de dados que nunca param. Em 2025, os centros de dados do mundo consumiram cerca de 448 terawatts-hora de eletricidade — o suficiente para os colocar entre os maiores consumidores do planeta, ao nível de um país inteiro. As projeções apontam para que esse valor mais do que duplique até 2030.
A água é a outra face deste problema. O arrefecimento destas instalações pode exigir, até 2030, cerca de 9,3 biliões de litros de água por ano. Para se ter uma ideia, é água suficiente para as necessidades domésticas básicas de mais de mil milhões de pessoas durante um ano inteiro.
Não se trata de tecnologia abstrata. Trata-se de eletricidade, água e território retirados a comunidades reais, muitas vezes em regiões já sob stress hídrico.
O custo está no uso diário, não no laboratório
Há uma ideia errada de que o impacto da IA se resume ao "treino" dos modelos. Na verdade, é a utilização diária — os milhares de milhões de pedidos feitos por utilizadores em todo o mundo — que representa a larga maioria da energia consumida. Cada pergunta, cada imagem gerada, cada automatismo soma-se a esta conta.
E essa conta começa a chegar aos cidadãos. O aumento da procura energética destas instalações é já apontado como um dos fatores na subida dos preços da eletricidade.
O que defendemos
A questão não é recusar o progresso. É exigir responsabilidade:
- Transparência obrigatória sobre o consumo de energia, água e solo de cada centro de dados.
- Critérios ambientais sérios no licenciamento destas infraestruturas, sobretudo em zonas com escassez de água.
- Energia verdadeiramente renovável a alimentar a expansão digital, e não combustíveis fósseis disfarçados de modernidade.
- Sobriedade tecnológica: usar a ferramenta certa para cada tarefa, em vez de gastar recursos enormes por moda ou conveniência.
Neste Dia Mundial do Ambiente, lembramos que nenhuma tecnologia é "limpa" só porque é invisível. O ambiente não se defende apenas nas florestas e nos rios — defende-se também a fazer perguntas incómodas sobre aquilo que escolhemos alimentar.



